PENSE MODA: PENSANDO MODA

Lars Svendsen é filósofo e teórico. Em sua palestra no último dia do Pense Moda sua intenção não era falar sobre a vida prática na moda, mas pensar sobre moda, mais especificamente sobre a crítica de moda.

Pra ele desde que um “fazedor de roupa” passou a ser um designer de moda e se atribuiu um status de artista, a crítica de seu trabalho passou a ser necessária. Assim como existe crítica de arte, de literatura, de cinema, de teatro, tem que existir crítica de moda, se a moda quer ser levada a sério. E ela quer, não quer!?!

Os criadores de moda deveriam entender que a crítica sobre o seu trabalho faz com que suas criações sejam ainda mais criativas! Acontece que o lado comercial da moda faz com que a crítica negativa seja mal vista – tipo “falaram mal de mim agora vou vender menos”. O engraçado é que pra todas as outras artes a crítica negativa é totalmente aceitável. Aliás pra Lars uma crítica negativa – bem feita, é claro – é super importante e muitas vezes as falhas de um trabalho é o que fazem com que ele seja mais interessante. Fora que é impossível que no mercado de moda só se produza coisa boa, né!?! E citando Collin McDowell “quando nunca se rejeita nada, as críticas positivas perdem o sentido”. Ou seja se nada é ruim como alguma coisa pode ser boa?

E uma crítica de moda bem feita é aquela que transmite um pensamento claro, com boa informação e explica pro leitor qual é o valor existente naquilo que foi apresentado. Crítica não é sinônimo de negatividade. Crítica é transmitir um julgamento – pode ser bom ou pode ser ruim – e por isso a seleção do que é importante ser dito é crucial. E essa avaliação deve estar apoiada em razões explícitas.

Tem que ter vitalidade, tem que ter ousadia, tem que saber separar o que é original do que é derivativo. Não é uma opinião, mas também não pode ser totalmente objetivo. Tem que ter uma certa subjetividade, porque escrever crítica é se expor!

Por isso não precisa que todas as críticas sobre um mesmo desfile sejam iguais. O desacordo é bom, os diversos olhares sobre uma mesma coisa é inteligente, agrega. Lars falou que quando todo mundo concorda quer dizer que tem alguém pensando de menos. Faz sentido! Aliás faz sentido pra vida!!!

A parte mais bonita foi quando ele explicou que a (boa) crítica de moda precisa influenciar na percepção de quem a lê e dar subsídios pro leitor tirar suas próprias conclusões, a fazer suas próprias críticas a entender a moda em sua própria vida. Criticar moda é – ou deveria ser – pensar moda!

Tags: , , , , 06.11.2009 - 00:54 | Postado por Cristina Categorias: mundo da moda 15 Comentários

Comentários

15 comentários para "PENSE MODA: PENSANDO MODA"

  • Thais Bueno disse:

    06 de 11 de 2009 às 08:16

    Eu adorei a palestra dele! Falta imparcialidade no jornalismo de moda. Mas, diferentemente do que ocorre nas outras áreas do jornalismo, a crítica de moda é parcial no sentido de ser à favor do objeto em foco.

  • Gabrielle disse:

    06 de 11 de 2009 às 10:53

    Meninas to adorando acompanhar o Pense Moda por aqui. Na verdade li tudo hoje, pq não tive muito tempo durante a semana.
    Gostaria muito de ter ido no evento, mas não é tão facil pq moro em Campinas, mas ja ta valendo ler os posts aqui, bom ficar por dentro!
    E adorei essa coisa da crítica de moda, super verdade, dificil melhorar o que a gente não sabe que ta dando errado. E é lógico, quanto mais opiniões mais a gente abre a mente pra qualquer coisa.

    beijos

  • Yasmin Araujo disse:

    06 de 11 de 2009 às 11:27

    De todas as palestras do Pense Moda, pra mim, essa foi a melhor. Acho que foi uma confirmação da idéia que eu já tinha. Porque desde que eu comecei a acompanhar as semanas de moda, há uns três anos atrás quando eu tinha uns 15 anos, a minha intenção era justamente entender o que é uma coleção boa. E desde então, na maioria das vezes, eu dou muito mais atenção ao que os críticos falam do que ao próprio “fashion show” em si. Detesto quando leio uma crítica e não encontro uma “crítica”, só uma demonstração escrita do que eu vi no desfile. Gosto dos críticos que falam o que foi bom, o que foi ruim, porque só assim eu posso entender bem o que é realmente uma boa coleção! E assim, lá no futuro quando for a minha vez, eu já vou ter uma noção e visão muito extensa disso. Vai ser mais fácil errar, porque vou aceitar a crítica, e também vai ser mais bonito acertar, porque vou entender o quanto isso é válido.
    Ah, e eu A-DO-RO a Suzy Menkes. É a minha favorita!

  • sylvain disse:

    06 de 11 de 2009 às 12:23

    Ótimo post! Mas ainda acho que a filosofia do Lars carece de pé no chão. Mas tudo bem, ele é filósofo, deixa o resto com a gente. Peço licença para reproduzir, humildemente, o post no meu blog, pois eu não saberia escrever melhor. Parabéns meninas!

  • Constance Zahn disse:

    06 de 11 de 2009 às 16:29

    Talvez o Sylvain esteja certo, de que a filosofia do Lars “careça de pé no chão” – ou pelo menos em se tratando do Brasil.

    Desculpem-me todos, mas a moda no Brasil ainda está engatinhando…!

    Ano passado, a minha ex-chefe na Givenchy veio para o Brasil. Dei uma volta com ela nas lojas pq ela queria conhecer e comprar moda brasileira. Ela ficou CHOCADA com a falta de qualidade nos materiais, acabamentos e os erros grotescos de modelagem em marcas consideradas boas (e caras!!) no Brasil. (houve exceções – mas foram poucas!!)

    E ela não é esnobe não. Porque assim como todo mundo na Europa, ela usa muito H&M, Zara e afins. Mas essas marcas, por mais que sejam baratas, têm a modalagem boa e muitas vezes tecidos melhores do que vemos nas marcas caras daqui.

    Antes de qualquer coisa, eu acho que a moda brasileira carece é de conhecimento técnico!

    E antes de haver um jornalista que tenha a coragem de botar a sua cara à tapa na hora de fazer a crítica (pq aqui corre o risco de acontecer o seguite: o jornalista fala o que pensa, a marca se ofende e chantageia o veículo em que ele anuncia a demitir o jornalista ou ela pára de anunciar – e isso já aconteceu com um jornalista SUPER importante!), seria muito legal ver reportagens mais “instrutivas”…!

    Novamente sem citar nomes, me irrita muito ver um editorial “anos 20″ com roupas que NADA têm a ver com os anos 20. Ou então colocar uma foto para ilustrar a tendência da manga raglan que – oops! – NÂO É raglan!! Isso se chama DESSERVIÇO! E acontece o tempo todo!!! Sem falar nas coisas absurdas que a gente lê que são 100% texto de assessoria de imprensa…

    Eu acho que antes de cobrar dos jornalistas uma crítica, a gente podia cobrar dos veículos um SENSO crítico… Já seria um bom começo…!

    AND GOD SAVE THE BLOGS!rs

  • Sarah Falcão disse:

    06 de 11 de 2009 às 16:35

    Nossa, super concordo e fico muito feliz em ver que rolaram palestras desse nível no Pense Moda. Falar sobre crítica de moda é algo super importante… Costumo pensar na crítica de moda como na de cinema – ambos são produtos artísticos mas que tem que estar atrelado a um lado comercial para poder ter subsistência. Por isso, gosto muito de um texto do Truffaut que se chama “Os Sete Pecados Capitais da Crítica Cinematográfica”. Acho que todo jornalista de moda que tem a intenção de produzir críticas deveria pensar nisso e ler esse texto. Aliás… todos os designers também! =]

  • Fernanda Kraemer disse:

    06 de 11 de 2009 às 17:27

    Não vi a palestra dele, mas entrei no site da Lojas Renner hj e vi que eles estão colocando lá os vídeos das palestras dos outros dias (as de terça e quarta já estão lá).

    Pra quem tb não viu, acho que vale a dica de ficar cuidando no site da Renner quando entra a do Lars Svendsen – acho que deve entrar em breve, se seguir a lógica. :)

  • Roberta Sampaio disse:

    07 de 11 de 2009 às 00:07

    Nossa,amei o texto e acredito em quase tudo que foi dito..Mas o comentário da Constance Zahn também foi excepcional!Concordo mesmo!Exato quando falo que não adianta querer que aqui no Brasil as coisas já venham imediatamente(como nos casos de blogueiros convidados pelas marcas para os desfiles),uma vez que,como ela disse,a moda aqui ainda engatinha(ainda mais aqui no meu Ceará!) e é necessário tempo e maturidade pra que se desenvolva um senso real da moda brasileira,além de uma melhor qualidade de materiais,acabamento e tudo mais como ela fala!Amei o texto e os comentadores! =D
    bjão!

  • Lucas De Nardi disse:

    08 de 11 de 2009 às 23:23

    Oi!
    Conheci o blog de vocês agora. Através do HyperCool. Achei bem interessante. Gosto de moda, apesar de ser apenas um vouyer deste universo.
    Escrevo para perguntar, porque vocês não tem feeds no seu blog?
    Beijos

  • Cristina disse:

    09 de 11 de 2009 às 14:21

    O Lars falou muito sobre o olhar crítico estar desvinculado de relações comerciais dos veículos e sabe também o quanto isso é difícil na vida real. Mas eu acredito que blogs têm um papel importante nessa hora. Porque a gente só tem compromisso com quem lê nossos blogs (pelo menos por enquanto). E posso ser um pouco Poliana, mas eu acho que as coisa podem mudar, sim. Não acho que a gente tem que se conformar só porque já é assim. Trabalho de formiguinha, sabe!?! Se gente começar a fazer críticas melhores, mais construídas, já é um passo pra frente!

  • Anna.The disse:

    10 de 11 de 2009 às 11:50

    Valeu o post, meninas…..bom para quem não pode ir, mas ficou morrendo de vontade de ter ido… Bem, o Lars falou algo que sempre me pergunto ou vejo pessoas levantando essa discussão, sobre os limites entre moda & arte, não se discute moda é um fenômeno social. Agora acredito que cada vez mais essas duas coisas têm dialogado – como o que Gareth Pugh de vez em quando faz, tb Jum Nakao, Junya Watanabe, McQueen e tantos outros – sim, eles fazem moda, eles querem vender, mas procuram ampliar nossa noção do que ela é, para algo novo, que não é apenas moda, nem arte, mas algo ainda passível de ser classificado, quem sabe…..Acho que não devemos ter o olhar de ser tudo no preto ou branco, pois para a própria “sobrevivência” da moda, as coisas não devem ser assim tão estritas…

    Enfim, estou esperando ansiosamente o lançamento do livro no Brasil….
    Bjs.

  • Leo disse:

    14 de 11 de 2009 às 12:58

    Preciso o texto. Um mundo sem observações externas, se torna um mundo fechado no próprio um bigo e sem possibilidades de crescimento. Menos ego e mais humildade. Uma salva de palmas para Lars Svendsen.

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