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Herança cultural no look
Olhar pro passado não é novidade (para a moda), revisitar é o que se faz há duas décadas pelo menos. O que faz esse ‘olhar pro passado’ caracterizar ‘olhar pra dentro’ é a sacada da interpretação – não adianta procurar no que já foi feito ou vivido coisas pra empurrar no look, vale mais a sensibilidade de resgatar fragmentos e sensações e, aí sim, incrementar o look com sutileza e nova abordagem. Tipo como a Rodarte usou nas roupas ascores de trigo e de céu, dali mesmo da vizinhança delas.

Ou tipo o estilista Thakoon Panichgul, que pesquisou estampas usadas pelas tribos Masai do Quênia. A estampa não aparece literal na coleção, mas tão lá as cores e os padrões que provavelmente impressionaram o estilista a ponto de serem “citadas” nas suas criações. E mais: os estilistas da Proenza Schouler encontraram nos grafismos/zigue-zagues dos índios nativos americanos inspiração pra fazer brilhar o olho de muita gente diante da sua passarela. O que essas referências fizeram cada um desses estilistas sentir é o importante, é o que aparece nos looks e é o que faz a diferença.

Não é ser nostálgica ou literal, é abordar de um jeito diferente – a partir da interpretação. Pensando como grupo, a gente aqui no BR tem estampas da Bahia, tem rendas do nordeste, tem couros do sul, flores e verdes e formas e arquitetura e música e balanço… toda uma brasilidade pra reinterpretar. Pensando individualmente, não tem aquele momento da infância ou aquela viagem (por exemplo) que deixou vontade de reviver momentos? O que a gente tava vestindo nessa hora? E o que as pessoas perto da gente tavam vestindo? E quais eram as cores desse momento? E quais as imagens da lembrança? Como estava o céu? Como era tudo?

Inserir o que a gente sente em relação a lugares, histórias, lembranças e imagens no que a gente veste, em forma de cores, sobreposições, proporções, acessórios, coordenações de tecidos e de texturas. Sensações embutidas no vestir, gente. Esse sim é truque de estilo novo-novidadeiro. E toda essa idéia veio desse texto aqui da Cathy Horyn no NYT.
AULA NA BANCA
A revista Cláudia desse mês tem uma entrevistona com João Braga, top professor de disciplinas de moda aqui no Brasil. O João é o maior especialista em história da moda que a gente tem no nosso mercado e todo mundo que a gente respeita já fez aulas com ele – e recomenda. Hoje ele dá aula em faculdades, dá palestras pelo Brasil e também uns cursos ótemos na Casa do Saber aqui em SP (vale o investimento e até a viagem). Na entrevista ele dá um monte dessas aulas só pela leitura – corre pra banca que é imperdível. Aqui tem as partes favoritas dessa Oficina que aprende mais um tanto a cada contato com o professor. Olha só!
Sobre desfiles, o professor diz que “as tendências desfiladas são só propostas. Quem dita a moda é a rua, ao legitimar a proposta. Quando o estilista faz o desfile não está lançando moda, mas propondo idéias que têm a ver com seu estilo e que poderão ou não encontrar ressonância no desejo de consumo que validará esta ou aquela tendência.” Entendeu?!?? (mais…)
quem conhece, reconhece (parte II)
Quem desenhou essa capa de disco de Gilberto Gil, na década de 60, foi um ‘artista-intelectual’ chamado Rogério Duarte. Ele é considerado um artista-intelectual porque fez muitos trabalhos gráficos incríveis, ao mesmo tempo em que esteve envolvido com movimentos contrários à ditadura no Brasil – ele foi, inclusive, um dos pensadores do movimento tropicalista. As cores e formas da capa do disco têm a ver com brasilidade, com a coisa psicodélica da época (eram as décadas de 60-70), com os valores da juventude daquele tempo e mais. Mais que tudo, é uma capa super bonita, não é?

Tempos depois a estilista Helô Rocha fez (para sua marca Têca) uma coleção inspirada em elementos do Tropicalismo – entre eles capas de disco contemporâneas ao movimento. E aí, amigos, se a gente sabe dessa estória aí de cima (no primeiro parágrafo), o vestido que homenageia o design da capa de disco passa a ser mais que só um vestido! Pode ser que a estampa, muito linda, seja mais: além de ser a inspiração da estilista ela também pode também carregar reflexos de um comportamento (da sociedade ou de pedaço dela!), de política, de economia, de ideologia… Informação na roupa! Informação que faz a roupa ter algum outro valor, não é mesmo?!??

A gente aqui acha que quem conhece, reconhece. E que quanto mais a gente vive, mais repertório (de tudo no mundo!) a gente tem pra identificar representações. E pode ser super legal pensar no significado do que a gente usa – não só nos significados literais, mas no que cada elemento do nosso visual representa pra gente mesmo. Não pra ser politizado ou intelectualizado e tals – mas pra (se) conhecer, e só. Ou pode ser só divertido, pode gerar conversa e pode fazer sorrir!
Na contramão (a gente adoooora!):
o pensamento (gênio) da dra. Vodca sobre a comunicação não-verbal
a reinvindicação do direito de se vestir só por diversão da Tati Rodrigues (gênia!)











