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Herança cultural no look

Olhar pro passado não é novidade (para a moda), revisitar é o que se faz há duas décadas pelo menos. O que faz esse ‘olhar pro passado’ caracterizar ‘olhar pra dentro’ é a sacada da interpretação – não adianta procurar no que já foi feito ou vivido coisas pra empurrar no look, vale mais a sensibilidade de resgatar fragmentos e sensações e, aí sim, incrementar o look com sutileza e nova abordagem. Tipo como a Rodarte usou nas roupas ascores de trigo e de céu, dali mesmo da vizinhança delas.

Ou tipo o estilista Thakoon Panichgul, que pesquisou estampas usadas pelas tribos Masai do Quênia. A estampa não aparece literal na coleção, mas tão lá as cores e os padrões que provavelmente impressionaram o estilista a ponto de serem “citadas” nas suas criações. E mais: os estilistas da Proenza Schouler encontraram nos grafismos/zigue-zagues dos índios nativos americanos inspiração pra fazer brilhar o olho de muita gente diante da sua passarela. O que essas referências fizeram cada um desses estilistas sentir é o importante, é o que aparece nos looks e é o que faz a diferença.

Não é ser nostálgica ou literal, é abordar de um jeito diferente – a partir da interpretação. Pensando como grupo, a gente aqui no BR tem estampas da Bahia, tem rendas do nordeste, tem couros do sul, flores e verdes e formas e arquitetura e música e balanço… toda uma brasilidade pra reinterpretar. Pensando individualmente, não tem aquele momento da infância ou aquela viagem (por exemplo) que deixou vontade de reviver momentos? O que a gente tava vestindo nessa hora? E o que as pessoas perto da gente tavam vestindo? E quais eram as cores desse momento? E quais as imagens da lembrança? Como estava o céu? Como era tudo?

Inserir o que a gente sente em relação a lugares, histórias, lembranças e imagens no que a gente veste, em forma de cores, sobreposições, proporções, acessórios, coordenações de tecidos e de texturas. Sensações embutidas no vestir, gente. Esse sim é truque de estilo novo-novidadeiro. E toda essa idéia veio desse texto aqui da Cathy Horyn no NYT.

Tags: , , , 24.03.2011 - 00:08 | Postado por Fernanda Categorias: moda e consultoria 16 Comentários

AULA NA BANCA

A revista Cláudia desse mês tem uma entrevistona com João Braga, top professor de disciplinas de moda aqui no Brasil. O João é o maior especialista em história da moda que a gente tem no nosso mercado e todo mundo que a gente respeita já fez aulas com ele – e recomenda. Hoje ele dá aula em faculdades, dá palestras pelo Brasil e também uns cursos ótemos na Casa do Saber aqui em SP (vale o investimento e até a viagem). Na entrevista ele dá um monte dessas aulas só pela leitura – corre pra banca que é imperdível. Aqui tem as partes favoritas dessa Oficina que aprende mais um tanto a cada contato com o professor. Olha só!

joaobraga

Sobre desfiles, o professor diz que “as tendências desfiladas são só propostas. Quem dita a moda é a rua, ao legitimar a proposta. Quando o estilista faz o desfile não está lançando moda, mas propondo idéias que têm a ver com seu estilo e que poderão ou não encontrar ressonância no desejo de consumo que validará esta ou aquela tendência.” Entendeu?!?? (mais…)

Tags: , 03.07.2009 - 16:10 | Postado por Fernanda Categorias: mundo da moda 15 Comentários

quem conhece, reconhece (parte II)

Quem desenhou essa capa de disco de Gilberto Gil, na década de 60, foi um ‘artista-intelectual’ chamado Rogério Duarte. Ele é considerado um artista-intelectual porque fez muitos trabalhos gráficos incríveis, ao mesmo tempo em que esteve envolvido com movimentos contrários à ditadura no Brasil – ele foi, inclusive, um dos pensadores do movimento tropicalista. As cores e formas da capa do disco têm a ver com brasilidade, com a coisa psicodélica da época (eram as décadas de 60-70), com os valores da juventude daquele tempo e mais. Mais que tudo, é uma capa super bonita, não é?

capa_rogerio_duarte

Tempos depois a estilista Helô Rocha fez (para sua marca Têca) uma coleção inspirada em elementos do Tropicalismo – entre eles capas de disco contemporâneas ao movimento. E aí, amigos, se a gente sabe dessa estória aí de cima (no primeiro parágrafo), o vestido que homenageia o design da capa de disco passa a ser mais que só um vestido! Pode ser que a estampa, muito linda, seja mais: além de ser a inspiração da estilista ela também pode também carregar reflexos de um comportamento (da sociedade ou de pedaço dela!), de política, de economia, de ideologia… Informação na roupa! Informação que faz a roupa ter algum outro valor, não é mesmo?!??

teca_tropicalia

A gente aqui acha que quem conhece, reconhece. E que quanto mais a gente vive, mais repertório (de tudo no mundo!) a gente tem pra identificar representações. E pode ser super legal pensar no significado do que a gente usa – não só nos significados literais, mas no que cada elemento do nosso visual representa pra gente mesmo. Não pra ser politizado ou intelectualizado e tals – mas pra (se) conhecer, e só. Ou pode ser só divertido, pode gerar conversa e pode fazer sorrir!

Na contramão (a gente adoooora!):
o pensamento (gênio) da dra. Vodca sobre a comunicação não-verbal
a reinvindicação do direito de se vestir só por diversão da Tati Rodrigues (gênia!)

Tags: , , , , 03.02.2009 - 23:20 | Postado por Fernanda Categorias: na vida real 19 Comentários