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QUANDO QUERO CALOR, FAZ FRIO
O desejo é ouro, a posse é prata, já dizia um dos ditados judaicos mais legais de todos os tempos. Aqui no Brasil, o desejo é materializado pelos lookbooks de lojas gringas. H&M, Madewell e até as gringas com filiais como Zara e Kate Spade nos fazem suspirar, só que pela estação errada. Quando lá está calor, aqui começa a fazer um ventinho. Quando por lá as coisas esfriam, por aqui a gente começa a achar que colar esquenta pra burro.

A internet, essa diva, trouxe um monte de referências que, anos atrás, só quem podia fazer compra de mês na banca de revista importada tinha acesso, mas deixou nossos desejos desajustados. Queremos vestidinho de primavera em julho e passa pra cá esse cachecol em dezembro. Claro que boa parte da culpa vem do fato de que a grama do vizinho sempre parece mais verde, mas a outra parte vem do fato de que, olha, não é que ela é mesmo mais verde? Não é que as lojas gringas capricham mais nessa história de lookbook? Oferecem opção para vários estilos enquanto as daqui parecem se destinar a dois ou três tipos de consumidora meio caricatas, tops.
É bem difícil ser feliz na moda sem aceitar a pessoa que você é, o lugar onde você mora e as possibilidades que tem. Essa não deve ser uma aceitação conformista, mas a base para tirar o que há de melhor nesses nossos “fatos consumados” e mudar o que dá para mudar tanto na gente quanto nas condições materiais.
Uma estratégia para ajustar esses nossos desejos deslocados é fazer pastinhas separadas para as diferentes estações, assim ninguém precisa se torturar com referências de calor quando está fazendo frio. Outa ideia é aproveitar nosso inverno ameno para simular uma primavera gringa (/aslokas) com ajuda de meia-calça e cardigãzinho. No verão/inverno, quando as temperaturas se radicalizam lá e aqui, o jeito é aceitar que em dezembro até maxi colar já parece cachecol do lado de cá do Equador.
NO LUGAR DAS PASHMINAS
Quando o look de festa é pego de surpresa por um ventinho frio, a gente ensina to-das as clientes a pensarem além das pashminas e das echarpes-conjuntinho. O que protege do frio não precisa ser só funcional, mas pode também ter informação e acrescentar interessância ao look – nem que seja através de exemplo bom, de fazer todo mundo em volta pensar que é possível variar! Sarah Jessica Parker acrescentou paletó ao vestidón dela, e podia também ter usado jaquetinha de couro, casaqueto de lã tipo chanel, blazer de veludo (!!!), até jaqueta jeans dependendo da ocasião. Favorito na Oficina é o cardigan, que quando feito em materiais finos-finíssimos e de qualidade, vão lindos às festas mais elegantes – e aquecem mais que qualquer outro complemento. Vale cardigan feito com misturas de algodão e seda, mohair, cashmere, angorá e merino.

Não que pashminas e echarpes não cumpram o papel, mas TODO MUNDO já usa e né, esse jeitinho de carregar caído nas costas preso nos braços é meio de tia, não? Outros complementos dão chance da gente incrementar o vestido com formas, materiais, transparências (por que não né?), cor, textura e até bordados, se for o caso. Também dão chance da gente manipular mensagens: um vestidón super tradicional pode ganhar cara nova com jaqueta de couro, ou modelo feito de tecido estruturado fica menos rígido com casaco de veludo… sabe?
Legal que o cardigan seja mais próximo do corpo e que as proporções sejam escolhidas de acordo com o que se usa no resto do look: vestido curto pode ser acompanhado de cardigam mais longuinho, vestido longo pode ter cardigan curtinho ou bem longão (tipo diva!) na coordenação. E as manguinhas podem estar puxadas até os cotovelos como a Sarah Jessica tá usando, pra ficar mais atual e pra continuar com a brincadeira das proporções. A gente aqui quer encorajar todo mundo a experimentar!
QUENTINHAS, MESMO DE SAIA!
Sabe o que a gente curte aqui? Remar contra a maré – a favor de uma maré só nossa, pegando uma onda que tenha mais a ver com a gente que com o resto do mar inteiro. A gente é assim com jeans, com preto… e por que não, no tempo frio, experimentar colocar as pernocas à vista?!?? Se a gente aquece bem os pezinhos (alô sapatilhas botinhas e oxfords, com solas não tão rasteiras – e alô alô palmilhas quentinhas!), se cobre as pernas com meias quentinhas (oi materiais que aquecem de verdade!) e se completa o look com casaco/capinha e pescoço coberto (pashminas e cachecóis, seus lindos E ÚTEIS!)… é possível não passar frio e estar feminina, com cintura marcada, com pernocas delineadas e – melhor de tudo! – diferente da massa, contribuindo com variedade visual do universo (!!!). Bem anti-pasteurização das modinhas, anti-todo-mundo-com-a-mesma-cara-o-tempo-todo.

Claro claro claaaro que look de frio com calça é mais seguro e é mais fácil – mas ó, a meia-calça quentinha pode (de verdade) aquecer mais que uma calça leve. E saias podem ser feitas de materiais tão quentinhos quanto os das calças, viu. Look bom pra gente sacar de vez em quando – e surpreender, e inspirar as moças que tão em volta. A gente vai experimentar, nossas clientes já tão experimentando, e a gente aposta que vocês vão sentir vontade também! ;-)
Uma meia-calça que esquente!
Quem já apelou até pra sobreposição de calça jeans e todo tipo de visual mendigo na batalha contra esse nosso frio tropical certamente inveja aquelas gringas lindas que saem pra vida em pleno inverno usando apenas casacão na parte de cima e meia-calça na parte de baixo.

Claro que parte do dom de enfrentar um inverno rigoroso dessa forma é genético e espiritual, mas a outra parte diz respeito ao conhecimento dos materiais mais quentinhos. Assim como brasileiro sabe muito bem que camiseta passa na prova do verão carioca, parisiense sabe que meia-calça levar pra comer baguete em dezembro.
A dificuldade na escolha da meia-calça é que nessa peça, ainda mais do que nas outras, a gente não pode se deixar enganar pela aparência, tem mesmo é que ver a composição do tecido porque duas meias da mesma grossura esquentam de maneiras completamente diferentes, então, a estatégia de olhar apenas a gramatura do fio não funciona. Ser fio 70 em acrílico é uma coisa, já em microfibra é outra coisa.
Uma meia de microfibra, por exemplo, é feita de filamentos super finos e suaves, mas que não dão conta de proteger perna de moça friorenta nem no inverno de brinks que a gente tem aqui no sudeste brasileiro. Microfibra é tecido para primavera, outono, pra moça do nordeste ou pra calorenta que quer apenas dar uma coberturinha na perna.

Já o acrílico é uma fibra sintética que tenta imitar a lã e, portanto, é bem mais quentinha. O legal do acrílico é que ele esquenta bastante sem dar volume, então, dá para fazer um monte de look mais cheinho na parte de cima, com suéter grosso, que vai bombar no inverno, sem ter que usar calça na parte de baixo do corpo.
O tecido acrílico tem um toque parecido com o da lã, fazendo o efeito “boneca de pano”. Por isso, é mais legal usar essa meia com tecidos lustrosos – como o couro – do que com outros tecidos cheios de textura, como a lã verdadeira.
As meias grossonas, de lã, têm uma pegadinha: você olha pra elas e diz “meu deus, é tudo que eu preciso nesse inverno”. Acontece que esse tipo de meia, geralmente sem elastano na composição, deixa o ar passar entre as fibras e não esquenta tanto quanto parece.
Quem quer disfarçar perninha grossa deve procurar meias mais transparentes, que mostrem mais a pele por entre as fibras. Geralmente, isso significa que a meia terá um fio menor (tipo fio 40) e, portanto, será menos quente. Nesse caso, cabe ao tecido adiposo mostrar do que é capaz!
TÁ FRIO OU TÁ CALOR?
A gente sempre implicou muito com looks tipo casaco-de-pele-com-sandália-de-tira-fina. A gente sempre se perguntava “mas essa pessoa tá com frio ou com calor?” Demorou um pouquinho pra entender que esse era um charme todo especial que quem adora misturar opostos e que essa desobediência poderia render muitas imagens interessantes.

Pra quem está afim de experimentar o desafio é conseguir um bom equilíbrio entre as peças “de frio” – pesadas – e as peças “de calor” – leves – pra que o look fique harmônico e que sirva pra meia-estação (ou pra ambientes com ares condicionados muito fortes). A terceira-peça pode ser uma ótima ferramenta aqui: paletós ou casaquetos de lãzinha ou de tweed podem ser usados sobre vestidos leves e românticos ou com calças curtas de verão. Tricôs pesados, com tramas mais grossas, mas vazados funcionam direitinho por cima de batinhas de seda estampadas e bermudões. Jaquetas e coletes de couro cobrem camisetinhas de algodão bem fininho coordenadas com saias leves e volumosas. Ufa!
A unidade se dá pelo “elemento-cola” que junta as peças aparentemente desconexas dando sentido ao todo: acessórios! Uma sandália mais pesada, um tamanco, um power colar, uma bolsa tiracolo mais estruturada… Tem que ser um acessório ali no meio do caminho, sabe!?! Nem tão “pelado” nem tão coberto”. E essa mistura de leve com pesado tem um perfume super setentinha, meio boho, que está dando pinta nos desfiles e editoriais mundo afora. Atualíssimo!!!
CORES CLARAS NO INVERNO
Pára pra pensar: bate um vento frio e o povo corre pra se agasalhar com casacão preto, cachecol preto, malha cinza, calça de veludo cotelê preto, jeans acinzentado, luvinhas pretas… uma infinidade de roupa escura! Mas né, gente, o que aquece numa roupa não é a cor e quem escolhe se esquentar em looks claros – por mais informais que eles sejam! – já se destaca em qualquer multidão. Roupa clara sempre carrega um ar mais elegante, dá sensação de “gente impecável”, sabia? E não tem essa de “ai mas branco suja muito” porque todo mundo é adulto aqui, né gente. E se sujar, qual o problema? Roupa é pra acompanhar a gente na vida, vivida de verdade! No fim do dia chega em casa, põe pra lavar e pronto. ;-)

Administrando texturas e volumes e formas e superfícies, tons claros podem ser até mais versáteis que os escuros (e tempo frio é perfeito pra gente exercitar coordenações com muitas peças juntas, ao mesmo tempo!). Tem jeans claro, tem sarja e brim beginhos e em tons de gelo, tem couro claro, tem malha em todos os tons claros do universo, tem cachecol e lenço com coordenações lindas de cores claras, tem uma infinidade de possibilidades pra brincar de monocromático e de tom sobre tom. Tem aqui esse muralzão com uma gente muito linda e quentinha, todas de tons claros ou médios, pra todo mundo se inspirar e experimentar também. Tá?!??
MÃOZINHAS COBERTAS COM ESTILO
Parte da graça do último desfile de Carolina Herrera (na semana de moda de NY) foram as luvinhas – essas mesmas nas fotos aqui do post. Usadas como acessório especial no styling da coleção, elas também rendem boas sacadas – mesmo pra gente que não tem um inverno assim tããão frio! Jeito mais brasileiro de usar luvas é escolher as mais longuinhas coordená-las com mangas mais curtas, em comprimento 3/4 ou na altura dos cotovelos. Bacana também escolher os modelos menos pesados: tem opções em tricô bem fino, em malha e até com dedinhos de fora.

E aí, com luvinhas no look, as possibilidades de se criar um look interessante aumentam consideravelmente. Diferente de colarzinhos e brinquinhos, que ocupam pequenino espaço na produção, luvas chamam mais atenção e carregam em si cores, tecidos/materiais, texturas, formas e detalhes que só acrescentam interessância – e rendem coordenações bem originais. Vale considerar cores e formas mais calmas se o tipo físico de quem usa é mais pesado visualmente na parte de baixo (alô quadrilzão), já que as luvinhas mais legais são as que mais chamam atenção pro quadril (sabia?).
Quem não tá preocupada com efeitos de cores e formas na silhueta pode então incrementar a coisa toda com acessórios sobre as luvas! Vale pulseira e pulseiras, vale braceletes nos dois bracos (a Chanel em si usava!) e vale brochinho numa mão só pra um charminho extra. Se prepara pra experimentar já no próximo ventinho frio que soprar!
CHANCE DE VARIAR MATERIAIS!
Tempo frio podia ganhar um significado extra pra gente que tem a moda como estilo de vida (!!!): junto com as sobreposições que a gente sempre pensa em fazer, a gente podia pensar na variação de materiais que compõem cada look quentinho. Que né, com as sobreposições já vem as variações de formas, proporções e até cores. Mas se a gente pensar em não repetir materiais nas peças que junta no visual – ou repetir tanto quanto possível! – toda uma interessância já tá garantida. Nem precisa pirar: só da gente juntar jeans, algodão, malha e tricô fino… a mágica já acontece – e tem tanta coisa que a gente pode aproveitar pra misturar, não? Tipo veludo com algodão, jeans com seda, tricô com malha… Tem toda uma fórmula aqui pra quem quiser estudar! :)

Já que tá friozinho e a gente tem que se cobrir, vale aproveitar e exercitar a variedade, a criatividade, né?
DE SAIAS E MEIAS NO FRIO!
Inverno é tempo de procurar saias em veludo e veludo cotelê, todo tipo de lã (desde as mais fininhas até às espessas, com tramas grossas), neoprene, tweed, couro e até os jeans mais pesados. Esses tecidos mais quentinhos não esticam (não têm elastano!), então as modelagens das saias escolhidas precisam ter espaço suficiente pra inclusão das aliadas número 1 dos modelos de inverno: as meias! Saia muito justinha fica agarrando no que envolve as pernocas e faz perder a liberdade. Ideal, então, é escolher formas que acompanhem a silhueta, mas sem marcar, sem grudar ne pele – em A, evasê, pregueadas, envelope, retinhas-soltas e tals.

E se com calça + blusa a gente já exercita coordenação de superfícies diferentes, com saia + meia + blusa o exercício fica muito mais rico! Ainda dá pra coordenar espessuras diferentes pra frios diferentes: meias mais translúcidas pra aquecer menos, meias mais opacas pra aquecer mais, leggings pra salvar pernocas aparecidas no friozão e meias vazadas, tipo arrastão, pra cobrir só o suficiente nos dias de temperatura intermediária. A escolha da meia também alcança o quesito adequação. As mais neutras, com pouco contraste quando coordenadas com as saias, vão agradar mais quem tem compromissos menos informais (ou quem tem quadril largo e perninhas grossas). As mais coloridas – e contrastantes na coordenação com as saias – frequentam com alegria compromissos mais desencanados e põem um sorrisão no rosto de quem quer desviar a atenção da parte de cima do corpo (alô, peitão! alô, ombrão!).
Mas meia-calça é acessório incondicional, né, que a gente atualiza de temporada em temporada mudando modelos, cores, texturas e tals. Nesse inverno tem meia de lã que vai até a coxa (mudando o decote de lugar quando deixa um pedacinho de perna à mostra, antes de encontrar a barra da saia!), tem meia de lã que cobre as canelas (boas pras donas de pernas longas e fininhas), tem sapatinhos masculinos que aquecem pézinhos – diz que aquecendo extremidades a gente até esquece do frio no resto do corpo! Mantendo a imagem feminina ainda é possível juntar as saias de inverno com sapatilhas e com botas elegantes. Se as européias conseguem, a gente também pode! Quer experimentar?
QUENTINHAS ATÉ A COXA
No desfile do Lino Villaventura em janeiro, na edição de inverno do SPFW, a gente ficou passada (pro bem!) com a “fenda de coxa” que as modelos desfilaram. Era assim: no lugar de meias-calças elas usavam leggings em tamanho 7/8, que subiam até às coxas. E as barras dos vestidos ficavam bem na mesma altura que essas leggings, então no movimento do andar a gente via um pedacinho de pele, escondidinho-querendo-aparecer, que além de ser uma idéia nova é também muito sexy (de um jeito super legal, super sem ser óbvia). Desde então essas “fendas de coxa” cruzaram o nosso caminho mais vezes e a gente tá achando que é bem legal pra experimentar pro frio, viu. Vale com saia, com vestido, com bermuda e com short.Legal que não fica agarrando um tecido no outro, né, como quando a gente sobrepõe peças de algodão e meias-calças.

Eu experimentei em Lisboa com meias de lã bem quentinhas, que iam até lá em cima na coxa, e (mais…)










