Arquivos de Posts
Você procurou pela tag "high-low"
COMO A GENTE USA A MODA
A revista Cláudia publicou tempos atrás uma entrevista bem boa com o João Braga, nosso professor de História da Moda. Nessa matéria o professor organizou um pensamento sobre o nosso jeito de usar a moda hoje, nos nossos dias, e esse pensamento serve muito como direção praquele momento em frente ao guarda-roupa, toda manhã, quando a gente pensa no que vestir. Olha só!

O professor diz que vê “uma nova forma de criatividade que consiste não na invenção de novas proporções, e sim nas novas possibilidades de combinar o que existe – eis o ponto forte dessa nossa época.” E completa dizendo que tem três maneiras de se colocar em prática essa ‘nova criatividade’:
CROSS OVER: quando a gente mistura elementos de tempos diferentes, mas marcantes – tipo coisas “anos 80″ com outras coisas “anos 60″
CROSS CULTURE: quando a gente mistura elementos de culturas diferentes, tipo peças “peruanas” com peças “africanas” – de etnias facilmente identificáveis e diferentes
HI-LO: esse a gente conhece beeeem, é quando a gente mistura peças originais e caras com outras mais baratinhas das grandes lojonas difusoras de modinhas (ou mesmo coisas super festivas com outras básicas do dia-a-dia)
E com essa receita colada na porta do guarda-roupa a gente tem direção pra to-dos-os-di-as-da-vi-da. A graça da nossa moda não é inventar nada super novo, mas sim TER IDÉIAS NOVAS. A maior tendência dessa geração é misturar tudo com personalidade, com cara própria – exercitar combinações pra alcançar, quem sabe!, uma aparência única, autêntica e exclusiva. Mesclando AS NOSSAS PRÓPRIAS INTERPRETAÇÕES do que é étnico, do que é marcante em cada tempo da moda, do que é barato e caro e original e modinha. E é nesse exercício que a gente aprende e que ganha segurança. Já pra frente do espelho então! ;-)
COURO E CAMURÇA EM HI-LO
Das coisas que a gente viu mil vezes e de muitos jeitos diferentes nos últimos desfiles de Fashion Rio e SPFW (e que não necessariamente são novos – a gente pode até ter no armário! – mas que são legais de usar agora!): tecidos/materiais com aparência de camurça e (menos) de couro… em coleções de verão. Preconceito zero com o material, uhúúú!
Em peças pequenas, tipo short sainha colete blusa ou jaquetinha curta, esses materiais mais espessos e estruturados são ótima base pra coordenar com tecidos leves e fluidos. Pensa: na onda de hi-lo, de mesclar opostos e de acrescentar personalidade ao visual com coordenações “fora do padrão”, essas misturas de leve-e-pesado podem sempre render criatividade. Vale com algodão leve, com seda, com jeans molinho, com moletom fino. A estória não precisa ser só entre roupa e roupa, vale também entre roupa e acessórios, viu?
Mais: a camurça e o couro mais feminino, né? Se o couro é lustroso, a camurça tem esse toque meio aveludado, que convida a passar a mão (proximidade feelings). Se o couro é super duro (mesmo quando é molinho ele ainda tem aparência de duro!), a camurça cai molenga, com folguinhas de material leve. Mais fácil ainda de se aproximar de outros tecidos femininos, mesmo com contrastes. ;-)
BRASILIDADE NÃO PRECISA SER CARICATURA
Pouca coisa tem mais cara de ‘ brasilidade’ do que palha – e tem tanto acessório legal feito com esse material, não? Por isso mesmo pode também ter cara de folclórico demais, de fantasia, e de informal demais (até meio desarrumado, sabe como?). O segredo pra usar bem pode ser o mesmo que direcionava o uso da palha na arquitetura e no design do tempo modernista/tropicalista brasileiro. E Lina Bo Bardi, arquiteta que amava trabalhar referências locais nos seus projetos, pode ensinar uma coisa ou outra. Na hora de fazer coberturas de varandas, ela misturava palha e materiais “globais” tipo concreto, aço, vidro. Na hora de inserir a palha em detalhes de móveis, ela fazia questão de ter junto materiais refinados e elegantes tipo madeiras nobres. Local e global, informal e elegante, popular e refinado.

Acessórios feitos em palha são incríveis pra se usar assim, nesse hi-lo de sensações. Não seria tão legal misturar acessórios de palha com chita ou renda renascença – isso sim, brasilidade com cara de fantasia, de figurino de filme de sertão. Vale muito mais a pena pensar nesses acessórios como detalhes-acompanhamentos de looks. Mesmo com looks em seda, em alfaiataria, no frio… vale o exercício. Bem brasilidade contemporânea!
TENDÊNCIA AGORA É VONTADE
A gente estuda em história da moda a era vitoriana, a era espacial, o flower power, os ‘anos oitenta’ e outros movimentos de moda que marcaram época. Hoje não tem mais isso: os desfiles que a gente vê podem mostrar micro e mini tendências, um bilhão delas, mas não dá pra identificar grandes temas ou tendências unificadas em superblocos. Muito por causa das mudanças de clima no planeta (alô mil outras coleções desfiladas entre semanas de moda), muito também por conta do fast-fashion – Zaras e H&Ms e Renners despertaram o mercado de moda pra urgência em vender, né? Vendas mais rápidas, vontades-relâmpago no lugar de tendências.

O que importa é que a gente tá no meio do tempo mais “tem pra todo mundo” que já se viu. Não existe uma vontade unânime: é a melhor hora pra escolher como se quer ser, como se quer parecer, todo dia, a cada ocasião. Todo mundo pode tudo (conhecendo seus limites e vontades autênticas e tals) e tá fácil ter estilo. Escolher com (mais…)
“nada muito dubai” (quem não ama?)
Então é semana de moda em NY, amigos. E Anna Wintour, que a gente curte BEM aqui na Oficina, deu uma entrevista ao Wall Street Journal pra falar dos reflexos da crise na moda. E aí que ela diz que, na opinião dela, a crise vai fazer o povo se conscientizar pra sempre de que consumo em excesso não é legal. E que a partir da “crise” todo mundo vai procurar consumir menos, mas direito – procurando peças que durem (tempo suficiente pra, pelo menos, a crise passar), focando super em qualidade e tals. Mas a melhor parte é quando dona Wintour diz que tá meio cafona usar look-ostentação por agora, e que ela acha mesmo que ninguém vai querer usar nada chamativo demais, ou muito brilhoso, ou “muito Dubai”. Não é MARAVILHOSO?!?? Hebe tá em baixa (rááá!).

“hummmm… ai, não sei… isso não tá muito dubai?!??”
Fora a brincadeira, a entrevista é legal mesmo. A Anna Wintour ainda conta que os preços das peças fotografadas pra Vogue América tão sendo reavaliados (ela se recusou a incluir num editorial um bolerinho de paétes que custava 25 mil doletas – e falou isso bem no sério, maravilhoooosa!), que a Michelle Obama inspira mulheres de verdade com seus looks high-low, do trabalho do CFDA incentivando novos talentos e de parcerias entre estilistas e grandes redes de lojas (pra fazer essas coleções baratinhas). Tá tudo em inglês, mas vale. ;-)
Sobre essa entrevista ainda tem quatro textos no blog Última Moda, escritos pela Vivian Whiteman. Olha, a Vivian tá bem brava com tudo que a Anna Wintour falou e faz/fez até hoje na moda, mas o que ela diz lá é bem coerente (na minha opinião pessoal). Podia ter um pouquinho mais de humor pra não parecer rabugento, mas é super super válido. Tá em quatro partes, começando aqui.











