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DO QUE A GENTE PRECISA?
Todo mundo já viveu isso: passar em frente a uma vitrine (ou clicar num endereço de venda online) e pensar “eu PRECISO disso!”. Duvido que alguém aqui nunca se justificou usando essa necessidade doida que às vezes a moda faz a gente sentir (é ou não é?). Mas né, com guarda-roupas abastecidos durante toda uma vida, duas-três-quatro portas de armário cheios de pecinhas ótimas (às vezes até mais!)… a gente ‘precisa’ mesmo de alguma coisa?
Pois a gente aqui na Oficina tem re-avaliado nossa relação com consumo. E tem tentado exercitar um novo olhar (de consumo) com as clientes de consultoria.
Ninguém PRECISA de nada, essa é a verdade. Em moda, ‘necessidade’ pode ser inteligentemente substituída por ‘fazer a diferença’. Simples assim: a gente não precisa de nada, mas a gente pode ter coisas que façam a diferença no armário, no vestir de todo dia, na vida prática.
E essa troca de valores não é desculpa pra justificar as mesmas compras que a gente faria por “necessidade” não. Precisar, precisar mesmo, a gente precisa é de consciência, de inteligência pra cuidar do dinheiro que ganha, de esperteza pra escolher onde se vai gastar e com o quê. A troco de quê. Então o que faz a diferença? Como identificar o que é chilique-chamado-convenientemente-de-necessidade e o que faz-a-diferença?
Peça de roupa (ou acessório) que faz a diferença é o que faz a gente dar um salto – de quem a gente é para quem a gente quer ser, sabe como? Peça que dá liga, que serve como cola entre outras tantas peças que podem estar paradas no armário, que faz render um monte de coordenações (lembra da regra das – pelo menos – três coordenações pra cada peça?) – essa faz diferença. Faz toda diferença o que não tem substituo no guarda-roupa, o que acrescenta informação extra, original e nova de verdade dentro do conjunto de peças que já se tem. Isso faz a diferença.
É um tempo de consciência, de viver bem a vida, de dar importância ao que é importante de verdade – e não ao que parece ser urgente. Moda é legal mas não é tão importante, gente. Não tanto quanto ter dinheiro na conta pra estar tranquila, quanto planejar/garantir conforto no futuro, quanto ter contas em dia. Roupa a gente tem – até sobrando. Comprar por comprar é bem demodé. E quando o dinheiro compra o que faz a diferença (e não o que é falsa necessidade) a gente é mais esperta.

REFERÊNCIA NÃO PRECISA SER FANTASIA!

Toda moda de hoje olha um pouquinho pra trás, e as décadas que já foram ainda vão continuar sendo por algum tempo (revisitadas no jeito de todo mundo re-usar o que já foi inventado). Essa é a sacada: conhecer o que já foi usado e usar de novo, mas não com cara de antes – e sim com cara de agora! Pensa bem: a gente pode querer usar alguma coisa dos anos 70 no look, pode até querer ter um visual inteiro com cara de anos 70. Isso não quer dizer, no entanto, que a idéia vira fantasia: não só o que se usou nessa determinada época serve de referência (visual), mas também o que foi vivido, o que aconteceu no mundo, quem viveu nesse tempo, o que se fazia e mais. Daí, look anos 70 pode ter crochê, calça com boca larga, paz e amor, coletinhos, As Panteras, Rita Lee, plataformas, óculos redondinhos, saia longa, Dancin’ Days, androginia, estampa tipo liberty, couro caramelo, John Travolta, vestidos longos e tals. Quaisquer referências dessas (tanto de peças, quanto de clima!) constroem looks bem atuais – quando usadas com as peças que a gente tem, cuidadas pra ter a ver com o corpo que a gente carrega e com a vida de todo dia. Sacou? :)
AJUDA NO OLHAR PRA DENTRO
Fui ao True Love Tattoo, estúdio de tatuagem, na semana passada e voltei com uma estória que pode se relacionar com moda. A Nanda, tatuadora de lá, contou que tirou do estúdio as pastas com desenhos de referência – sabe umas pastonas, tipo com o portfólio do tatuador, pras pessoas escolherem desenhos? O estúdio dela não tem mais essas pastas, não tem referência externa, não tem exemplo nem idéia solta no ar. Nadica de nada.

Ela explicou que tatuagem é de usar, é do corpo, faz parte de quem a gente é – por isso a referência deveria vir de dentro, e não de fora (muito menos de uma pasta de desenhos feitos pra ooooutras pessoas). Se identificar é uma coisa, curtir um desenho ou uma idéia é outra. A Nanda contou que tava chegando gente no estúdio, pedindo a pasta, apontando o dedinho e escolhendo assim, por escolher, o que queria tatuar. E ela resolveu que, artisticamente e com o trabalho dela, ela queria contribuir pra que as pessoas olhassem mais pra dentro, observassem mais o que gostam e o que tem significado INDEPENDENTE de olhar referências ou de ter modelos. E foi assim que as pastas foram guardadas pra nunca mais circularem por lá.
Ela reconhece que pode ser um pouco radical mas vejam, eu pensei bem na relação dessa estória com a gente escolhendo o que vestir ou o que comprar. Mesmo que roupas e acessórios não sejam tão grudados na pele assim, a gente também escolhe (ou deveria escolher) de acordo com quem a gente é. Bem na onda de ter referências pra inspirar, pra abastecerem a gente de opinião própria – e não pra copiar. Ser quem a gente quer ser independente de referências ou modelos. Imagina quanta imagem única, original, nova e arrebatadora a gente ia produzir e encontrar por aí?!?? :)
DIVERSIDADE NAS REFERÊNCIAS
O Wardrobe Remix é um grupo colaborativo de fotos no Flickr: todo mundo que curte tirar fotos dos looks que escolhe pode mandar as imagens pra lá e se auto-publicar. Legal é que esse é o canal mais recheado de “diversidade” que a gente conhece (até agora)! Tem gente gordinha, gente baixinha, gente maisnova e mais velha, gente magrela e bem alta, gente mais informal, menos informal… e meio que de tooodo lugar! Até por conta dessas diferenças todas – dessa falta de uniformidade MARAVILHOSA – é mais fácil a gente não gostar do que gostar do que vê: repara como a gente vai fazendo cara feia pros looks num primeiro momento (é aqui assim com a gente!).

Daí, parando pra pensar, a gente vê que a cara feia pode rolar muito mais por que a gente tá acostumada com os mesmíssimos looks de sempre – cintura alta, botinhas no tornozelo, camiseta listrada, barrinhas de calça dobrada, jaquetinha de couro, etc etc etc. Não que no Wardorbe Remix não tenha, mas lá (aparentemente) a tendência que domina é um pouquinho mais pautada pelo universo pessoal de cada um. Mais legal é ser diferente mesmo do que entrar num álbum de fotos pasteurizado, em que todo mundo – de qualquer lugar do universo – tá meio que com a mesma cara. Fica a dica pra gente mesma.
TODO MINI-ESFORÇO VALE A PENA
Imagens de revistas, de sites de streetstyle e (hoje em dia) de veículos que fotografam celebridades super abastecem nosso repertório pessoal de referências de moda. Tudo que a gente vê e acha bonito tem a ver – de algum jeito! – com a gente mesmo, já que rolou toda uma identificação. Aí, o que importa de verdade, é achar o que tem ‘da gente’ em cada referência que encanta e SER a gente com essa informação. Tipo porque encantou, no que essa referência tem a ver com a nossa vida, do que a gente gosta mais na imagem, em que circunstâncias seria perfeito exercitar as idéias da referência. E procurar esses sentidos (subjetivos mesmo!) nas peças de roupa que a gente já tem ou no que a gente vai comprar.
Porque é isso, né, re-fe-rên-ci-a: querer ser igualzinha à qualquer imagem de moda (que é produzida, iluminada, especialmente cuidada de jeito diferente da vida real) é como “ver o Fred Astaire no cinema e achar que pode sair dançando como ele - quando na realidade parecemos hipopótamos”. A gente não tem que ser a referência, a gente tem que se inspirar nela – e ser quem se é! E procurar/achar sentido. E se esforçar pra exercitar esse gosto no vestir do dia-a-dia. Qualquer pouquinho de energia que a gente coloque nisso não só já faz diferença como também vale muito a pena. Fica a dica pra semana: experimentar com sentido, sendo quem a gente é, com a informação que a referência acrescenta. ;-)
REFERÊNCIA É SÓ REFERÊNCIA!
Achei essa imagem aqui nos arquivos do passeio com leitoras que a gente fez pro Bom Retiro tempos atrás (foi TÃO legal!). O aviso tava na entrada de uma loja – e não é que faz sentido pra além dos domínios da marca? “Não entrar na vitrine” pode fazer a gente pensar em não se vestir da cabeça aos pés com num lugar só (com peças de uma marca só). Também pra não precisar da orientação dos looks pré-preparados pela equipe que monta a vitrine – ou pelo menos só pra ter essa orientação como base pra quebrar regras e elaborar uma proposta mais pessoal!

Mais: o aviso pode servir pra desprender a gente da idéia de que a moda tá ali atrás daquele vidro… na verdade, a moda de cada uma tá em frente ao espelho do guarda-roupa, com as ferramentas que se tem ali dentro, angariadas durante uma vida (vivida de verdade!!!) e prontas pra serem misturadas de acordo com referências e vontades próprias! Então gente, não mesmo. ‘Não entrar na vitrine’ vale pra nossa relação com toda a moda, com toda roupa, todo look, todo dia. Néam? ;-)
GRAFITE E INTUIÇÃO
Tá tendo aqui em SP, no Masp, uma exposição só com trabalhos de grafiteiros – chama “De dentro para fora, de fora para dentro” e é muito muito legal ver o que a gente já vê em muros pela cidade… dentro do museu! Não só em forma de pinturas/desenhos, mas também em adesivos, fotografias, instalações e vídeos. Um desses vídeos super me impressionou, mostrando o trabalho do Stephan Doitschinoff. Ele se mudou pra uma cidadezinha do interior da Bahia e grafitou TUDO em volta: casas, muros, capelas e até lápides de cemitério. E o próprio artista conta que, na medida em que ia trabalhando e interagindo com as pessoas de lá (e com o clima e com as casas e com tudo em volta), seu trabalho ia sendo influenciado – pelas cores, pelas formas, pelos temas e até pelas suas crenças pessoais.
Na apresentação da expo tá escrito que esses grafiteiros, tipo o Stephan, “representam uma geração (…) acostumada a quebrar regras e pautar-se pela própria intuição”. E mais: “(esses artistas) aprenderam a fazer arte em contato direto com o público, abrinda diálogos visuais com a população” e isso me impressionou. Voltei e conversei com a Cristi e a gente pensou que (mais…)
O NOVO (?) MONOCROMÁTICO
A coordenação de cores monocromática – quando todas as peças do look são da mesma cor, mesmo em tons diferentes – transmite uma mensagem suuuuuper elegante!!! A gente não cansa de falar isso por aqui, né!?! Acontece que a coordenação monocromática alonga a silhueta, porque não divide em blocos de cores, e assim cria uma imagem longilínea. É essa imagem longilínea que carrega a mensagem do refinamento, da sofisticação. São diálogos subliminares que nossas cabecinhas têm com as figuras que enxerga!!!
Mas – como nada é perfeito – a coordenação monocromática algumas vezes pode ficar monótona, muito séria e pode até envelhecer o look. A sacada então é fazer looks monocromáticos que tenham algum twist, alguma interessância, que deixem a gente chique, mas ainda assim original e jovial.
E se o look monocromático ao invés de ser todo cinza, ou todo bege, ou todo preto (bocejo) fosse todo vermelho, azulão, roxo, pink? Difícil? Nem tanto, sabia!?! (mais…)
EU NÃO GOSTO, MAS E DAÍ?
Umas das coisas mais difíceis da profissão de personal stylist é se desprender do nosso gosto pessoal na hora de analisar um cliente e seu guarda-roupa. Seria muita hipocrisia da minha parte dizer que minhas preferências não interferem em nada no trabalho, mas tem que existir um esforço pra que ele interfira o mínimo possível. (Essa é a vantagem de se trabalhar em dupla, uma ajuda a outra a identificar se o critério usado em determinado momento está baseado no que eu acho bonito ou no que é bom pro cliente.)
E se desprender de gosto pessoal é um exercício contínuo. A cada cliente a gente se sente um pouco menos bitolada, um pouco menos preconceituosa. Porque se tem uma coisa que aprendi nesses 6 anos de trabalho na Oficina foi que não gostar de alguma coisa tem muito mais a ver com preconceitos do que com o olhar estético, sabia!?!
Quando vejo uma imagem de moda – seja um editorial de uma revista, um desfile ou uma peça no guarda-roupa de uma cliente – é inevitável fazer um julgamento “acho bonito” ou “acho feio”, mas depois tento enxergar ali que mensagens essa imagem transmite, o porque dela ser daquele jeito e o que posso aprender com ela. E no final eu sempre aprendo muito mais com o que a princípio achei feio!!!
Se a gente simplesmente pára no “não gostei” ou – pior ainda – “não gosto”, perde a oportunidade de ampliar o universo de referências visuais, deixa de ganhar conhecimento, fica preso às mesmas ideias. Intolerância só atrapalha nosso desenvolvimento profissional, gente!
Tanto faz se eu acho bonito ou feio o que a Joelma veste. Tanto faz se a Sabrina Sato é vulgar ou não. Tanto faz se eu gostei ou não do filme que eu vi, mas importa o que tem lá escondido pra ser “enxergado”. Em todos esses “desgostos” tem um infinito de coisas pra gente estudar e aprender – sobre os outros. E sobre a gente mesmo!!!
LOOKBOOK PESSOAL
Montar looks com as peças das clientes é uma das etapas mais divertidas – e educativas – do nosso trabalho!!! É quando a gente junta tudo de mais legal que tem no guarda-roupa com as peças bacanas que a cliente comprou e monta um monte de coordenações com a cara dela. A cliente prova – e aprova! - e a gente fotografa o look completinho… daí que a cliente fica com um conjunto de fotos que vira o lookbook pessoal dela.
E tem como todo mundo ter o seu lookbook, cheio de coordenações inspiradas e que funcionam pra vida, quer ver? A primeira coisa a se fazer é uma pesquisa de imagens atuais que vão servir como referências na hora de montar os looks. Vale pesquisar em revista, em site ou blog, em filme, em novela, vale tudo!!!
Daí é ir pra frente do guarda roupa e separar todas as peças que a gente mais curte. Pode separar também as mais novas e atuais. Pra cada peça a gente pode montar um look novo, fazer uma coordenação que a gente nunca tinha feito, mesmo que seja a peça mais usada do armário!!! (mais…)














