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O LADO HUMANO DOS DESFILES
O que a gente vê nos desfiles de semanas de moda, exatamente como é desfilado, quando nunca pode ser encontrado desse jeitinho nas lojas. Se é que a gente frequenta (ou consome) as lojas das marcas que desfilam em semanas de moda! Talvez por isso, nesses tempo de muitas semanas de moda, muitos desfiles e MUITAS imagens de looks-de-passarela disponíveis (ao alcance de to-do-mun-do), chame muito mais atenção o que se usa fora das passarelas. De uns anos pra cá a gente percebe (aqui no blog mesmo) que o interesse pelas passarelas é infinitamente menor pelo interesse que os looks de quem vai ver essa mesma passarela, de quem assiste aos desfiles. Quem tá nos corredores da Bienal ou nas entradas e saídas de desfiles internacionais tem rendido muito mais assunto que o que foi mostrado nas passarelas. Nosso gosto amadureceu, nossas escolhas estão aperfeiçoadas e a gente quase acha que tá valendo mais o “como usar” do que o “o que usar”. Quase!

Acontece que se tem uma coisa nessa vida que acrescenta valor ao que a gente veste é o SENTIDO. E semanas de moda são prato cheio pra gente aprender mais sobre o que motiva a criação da roupa, o que direciona a pesquisa de tendência (isso ainda existe?), o que tem de história – e estórias – no pacote de cada modinha que a gente tem vontade de usar. A ‘viagem’ de cada estilista pode render coordenação de cores que vem de alguma idéia bacana, os cenários podem ser iluminados de modo que faça lembrar um jogo de texturas, a música pode ter a ver com a imagem (e é tão legal pensar que looks podem fazer referência à músicas, não?), o que cada amarração acessório cabelo aplicação recorte pode carregar de informação que vai além da moda! A gente pode prestar atenção na “origem” de cada coleção desfilada ao ouvir o que cada estilista conta sobre seu próprio trabalho a cada temporada, e assim se permitir-se interessar por inteligências diferentes… que podem ser carregadas no que a gente veste. O lado humano dos desfiles, essa vontade da gente aprender e interpretar e dividir o que faz brilhar o olho com mais gente (através do que a gente escolhe vestir), é pra gente aqui na Oficina um antídoto contra qualquer banalização ou supervalorização vazia de roupa e aparência. Só vale mesmo o que vale pra gente mesma!
A edição de inverno 2012 do SPFW que começa hoje propõe “uma reflexão sobre a riqueza e diversidade do processo criativo e dos pensamentos que alimentar idéias e inventam soluções” – o evento inteiro quer “celebrar a maneira como a moda amplia e valoriza o nosso imaginário” (daqui). Essas são máximas que a gente pode exercitar agora, em tempo de desfiles, e levar consigo pra vida, pra frente do espelho, pra passeio no shopping, pra visita à liquidação. Encontrar sentido no que a gente veste – e permitir que a moda amplie e valorize o nosso imaginário! – é tarefa pra quem tá atento ao que é importante (pra si mesmo), à singeleza da vontade genuína, ao amor próprio. :)
MENINOS À FRENTE
Já houve um tempo, lá pelo período do rococó e do rei francês Luis XIV, em que os homens se importavam muuuuito mais em se enfeitar do que as mulheres. Hoje os papéis se inverteram e as mulheres estão quase sempre muito mais interessadas em renovar o guarda-roupa com novas tendências do que os meninos. Mas por uma brecha de dois meses, os homens parecem continuar à frente das mulheres – ao menos na cabeça dos estilistas.

As semanas de moda masculinas acontecem um pouquinho antes das femininas no mundo todo, então as ideias dos estilistas pras marcas masculinas e femininas acabam por se coincidir – de um jeito muito legal, afinal a gente tá falando de gêneros diferentes! Dá pra acompanhar as fotos dos desfiles masculinos no site da Vogue UK, eles acontecem geralmente nos meses de junho e janeiro! (mas as datas podem variar).
A verdade é que os homens, na prática (na vida real!) parecem estar menos abertos a novidades do que as mulheres. No entanto, são nas coleções masculinas que as ideias mais legais, as vontades de moda e tendências mais incríveis surgem antes! Por exemplo, a coleção masculina da Prada já antecipava as (tão famosas!) listras coloridas que a gente quer usar agora, assim como as formas das roupas – e até os modelos masculinos e femininos de sapatos são bem parecidos!

Mas tudo aparece de um jeito tímido, e parece ganhar muito mais força quando chega a vez das mulheres – maravilhoso pensar assim, né?! Já a Jil Sander, marca que disseminou os blocos de cores, já tinha desfilado meninos de roupas coloridas bem antes das mulheres, e só encheu a passarela com mais cores ainda na segunda apresentação. Incrível perceber como essas ideias evoluem e ganham mais riqueza de uma coleção pra outra! Pra ficar de olho – mesmo! – no guarda-roupa masculino.
O MUNDO DE SONHOS DA ALTA-COSTURA
Durante a II Guerra Mundial, quando a França foi ocupada pelas forças da Alemanha nazista lá na década de 40, Hitler quis que a Alta-Costura trocasse Paris por Berlim ou Viena. Lucien Lelong, que era o presidente da Chambre Syndicale de la Haute Couture na época, impediu que isso acontecesse e defendeu os interesses de todas as maisons com um ultimato: “É em Paris ou não é em lado nenhum” – e toda essa proteção com o termo “alta-costura” continua intacta até hoje.

O mundo de sonhos da alta-costura é desconhecido por quase todo o planeta, mas passa a ser irresístivel, ou no mínimo impressionante, quando se conhece os mínimos detalhes de toda essa exclusividade. As regras impostas pela Chambre Syndicale de la Haute Couture são muitas, todas extremamente comprometidas em deixar esse termo o mais luxuoso possível, sempre mais e mais! Exemplos?! Cada maison deve ter prédio próprio em Paris, no “triângulo de ouro”, a região mais sofisticada (e cara!) da capital francesa. Cada prédio deve ter uma loja no térreo e espaço suficiente para a produção das roupas – que só podem ser feitas em Paris – além de um grande salão para apresentações, no caso de um desfile exclusivo para uma cliente especial – tudo isso por pura tradição! O termo “alta-costura” é patenteado e protegido por lei (mesmo traduzido!), ou seja, alta-costura só se faz em Paris e em nenhum outro lugar do mundo.
Só existe uma unica peça de cada modelo de alta-costura, e normalmente ela tem os cuidados de uma costureira exclusiva só pra sua confecção, podendo levar até 200 horas (!!!) pra ficar pronta. Pelo menos 80% desse trabalho é feito à mão, quase não se usa máquina de costura, e elas nunca entram em liquidação – “ou a cliente pode pagar, ou ela não pode”. Tudo que não é vendido vai pra um acervo que é carinhosamente chamado de “cemitério”, e depois de um certo tempo a gente pode até encontrar essas raridades em museus – jeito super legal e fino de eternizar todo esse trabalho tão rico!
Com todas essas informações, não fica nem um pouco difícil imaginar que essas roupas são muito, mas muito caras! Dá até pra gente dizer que os preços são equivalentes aos de carros – se é que não os ultrapassam.

“Imagem de Mona Von Bismarck, a maior compradora de alta-costura de todos os tempos – ela usava Balenciaga pra regar as plantas!”
Apesar de todo o luxo, vale a pena pensar que quando a gente compra um perfume da Chanel, um ítem de maquiagem da Givenchy ou um esmalte da Dior – produtos que são os responsáveis pelo real lucro financeiro dessas marcas – automaticamente a gente compra também um pouquinho desse luxuoso sonho parisiense.
Hoje as casas de Alta-costura avalizadas pela Chambre Syndicale (entre membros aderentes como Chanel, membros estrangeiros como Giorgio Armani e membros convidados como o brasileiro Gustavo Lins) são: Alexis Mabille, Christophe Josse, Bouchra Jarrar, Christian Dior, Alexandre Vauthier, Giorgio Armani Privé, Chanel, Stéphane Rolland, Atelier Gustavo Lins, Givenchy, Adeline André, Maurizio Galante, Julien Fournié, Franck Sorbier, Elie Saab, Jean Paul Gaultier, Maxime Simoens e Valentino.
MIL E UMA POSSIBILIDADES EM LISTRAS
Não tem estampa mais versátil nesse mundo do que listras! Mesmo quem não curte usar estampas taaaaanto assim, acaba gostando de um listradinho aqui ou alí. Elas podem ser bem clássicas do tipo mariniére ou pode ser bem – mas BEM – coloridas, como as que apareceram em vários desfiles internacionais nessas últimas temporadas!
Marcas-adoradas-idolatradas-salve-salve, tipo Prada e Marni, mostraram várias opções de coordenações de cores muito bacanas em suas listras. Ô tendencinha fácil de carregar pro nosso dia a dia, hein!?! É só achar uma peça listrada-multi-colorida – pode ser uma camiseta, um vestido, uma saia, um suéter – e sair por aí linda, com a coordenação de cores interessante prontinha, sem ter que quebrar a cabeça em mil pedaços!
E aí que quando a gente acordar naqueles dias inspiradíssimos a gente ainda pode abusar da nossa criatividade e ainda tentar fazer uma coordenação bem legal entre listras coloridas. Que tal?
POUCOS (MAS LONGOS) LINKS PRO FIM DE SEMANA
• Entre tanto minimalismo, tanta cor-nada e tão pouco de tudo, surge a Prada cheia de muita coisa! No Saia Lapis tem um textão muito inspirado fazendo uma conexão entre o desfile da marca e o Cortiço (de Aluisio Azevedo) e nos obrigando a olhar pra dentro.
• Mais de semanas de moda: a Santa Rendeira notou que os vestidos que lembram as túnicas do período clássico (Grécia e Roma antiga) apareceram de monte nas passarelas. E até mostra como eram as amarrações dos vestidos originais! Pra gente entender a diferença entre o classicismo e o clássico!
• Os bastidores da moda e de uma marca podem ser mais interessantes até do que ela desfila, sabia!?! A prova disso é o dramalhão italiano por trás da Casa Gucci (que vai até virar filme) e quem conta de um jeito bem gostoso de ler é o – nosso amado – Vitor Angelo do Dus Infernus. Ó que história!
• Texto tem-que-ler-já é a minibiografia da “maior editora que o Brasil já teve”, Regina Guerreiro, nas palavras de Vivian Whiteman no site da Folha. Precisa dizer mais alguma coisa? Corre lá!
• A Brisa Issa do Tá Usando, como uma boa pin-up moderna que é, curte muito a Dita Von Teese e fez um “compilado” dos looks que a moça usou pra ir assistir aos desfiles em Paris. Mil referências boas, mesmo pra quem não é fã do estilo!
LINKS DE FIM DE SEMANA
• Lição de coerência com Cate Blanchett no Tá Usando, que serve de dever de casa pra todo mundo que se interessa por (ter) estilo pessoal. Tipo, melhor mini-texto super importante da semana. <3
• A revista Vogue está passando por um período de mudanças e volta a ser publicada em novembro com um monte de gente nova na equipe – cheia de amigos queridos dessa Oficina! O Aqui Só Tem Bafón conta mais, ó!
• “A maioria das fashionistas é elegante, sem graça e se veste exatamente do mesmo jeito. Parece um catálogo de loja de luxo. Os fotógrafos de street style só clicam roupas de grife e moças com looks de revista. Ou então os exóticos, tem um monte deles aqui. E também tem os weirdos e os deslocados, tipo uma velhinha de moletom que está sempre tentando roubar um lugar na segunda fila hahahaahaha ” Esses e outros babados dos bastidores da cobertura da semana de moda de NY no blog do caderno de moda da Folha de SP, contados pela Vivi Whiteman!

• Entrevista super ótima com a Ana Clara Garmendia, nossa musa da observação da moda de rua parisiense (!!!), lá no Glamour de Garagem.
• Segundo melhor mini-texto importante da semana: o blog Voltas ensina pra gente sobre uma qualidade – de estilo, de aparência, de vida! – que não se vê, mas que faz to-da diferença. <3
• Os Underaged Heartbreakers refletem sobre o amor que a gente sente pela moda – e concluem que tem que ter opinião própria e gosto autêntico pra justificar esse amor!!! Uma graça de pensamento, veja só. :)
• Toda uma oooonda de bichos nos anéis gigantes da hora, desde os selvagens até os mais fofuchos: mil fotos fuefas no Look Legal.
• Sobre a importância das cores – e de como o olho brilha diante de coordenações legais delas – olhando com carinho pro desfile de Marc Jacobs, com exemplos pra repetir em casa e tudo!, no Plasticky.
• Fotos do Karl Lagerfeld gordinho e magrinho no Modismo pra gente lembrar que nosso corpitcho é mais importante que qualquer moda – e serve de suporte pra ela (alô auto-citação). Bom pra não se exceder no fim de semana, né? :)
DESFILES COMO ESTÓRIAS CONTADAS
Um amigo querido (que fez faculdade de cinema) explicou tempos atrás que o cinema é um sistema todo pensado e preparado pra envolver quem se dispõe a participar da estória que vai ser mostrada. Tudo escurinho, com roteiro minuciosanente trabalhado, com imagens cuidadas, com lugares confortáveis, com isolamento de outros sons que não sejam o áudio do filme… e mais: quanto menos contato com o exterior a gente tem (alô celulares desligados!), mais a gente se deixa seduzir e entender a estória que tá sendo contada. É muito verdade né?

E aí é bem possível pensar que com desfiles acontece quase a mesma coisa. Tudo ali tá preparado pra gente conhecer e entender uma estória com início (a inspiração!), muitos meios (tecidos,formas, proporções, cores, sapatos, acessórios, maquiagem, cabelo) e um fim que acaba fazendo parte das nossas vidas, na prática. Tem elementos pensados e preparados pra embalar a gente no decorrer da narrativa – tipo no cinema! – com trilha escolhida a dedo, iluminação e cenários elaborados, modelos selecionadas com critério e tals.
Então a gente vai fazer força pra participar integralmente dessas “contações de estórias de moda” a partir dessa quarta-feira, pra desligar celulares – e twitter! – durante cada “show”, pra absorver tanta informação e poesia quanto for possível… e depois, então, dividir e comentar com todo mundo aqui no blog, lá no twitter, no flickr e nos vídeos de balanço todo fim de dia. Preparadas pra essa edição de verão 2011 do SPFW? ;-)
BAILE DE PERUAS (PERUAS PERUAS PERUAS)
Toda semana de moda eu ouço baile de Peruas mentalmente! A música da Liana Padilha foi feita em parceria com o André Lima ‘costurando’ pedaços de várias críticas escritas sobre os desfiles do estilista. Dá até pra imaginar quem falou o quê, não?!?? Bom p fazer um recreio, pra gente dançar um pouquinho entre desfiles, pra celebrar a moda como museu de grandes novidades, pra rir de si mesmo e pra espairecer. Sem medo de voar, sem medo de abalar. Beijos, Fê. ;-)
O OLHAR ATENTO ENCONTRA SIGNIFICADO
As semanas de moda tem um sentido extra pra gente aqui na Oficina de Estilo. O que a gente vê em passarelas é inspiração que a gente põe DE VERDADE em prática, o tempo todo com clientes em provadores. Então, pra gente é mais importante pensar em como usar do que pensar no que se vai usar (peças e produtos), já que cada cliente tem um universo particular único e independente de quaisquer modinhas. A gente acha, inclusive, que essa é a parte mais legal da moda do nosso tempo: saber COMO usar é mais importante do que usar a “coisa da hora”.

Semanas de moda são, por isso, super propícias pra gente exercitar jeitos de usar o que a gente tem (ou vai ter!) e desenvolver pensamento com alguma originalidade em relação à moda. Mesmo quando um desfile é ruim é possível enxergar cores, coordenações delas, formas, caimentos, texturas, acessórios, materiais, comprimentos, proporções e mais. O olhar atento encontra significado e quem “estuda” imagens de moda ganha como recompensa mais destreza na hora de fazer seu próprio styling. Quem quer ser interessante tem que estar interessada. É com esse olhar que a gente faz força pra ver tudo que o SPFW mostra pra gente: a cada desfile a gente procura significado, tenta expandir nosso repertório imagético, tenta absorver novas idéias e deixar tudo estimular nossa vontade de experimentar, de evoluir. Sem pensar em roupa por roupa apenas, mas pensando em idéias.
CALÇAS CONFORTÁVEIS À VISTA
Na última temporada de desfiles das coleções de meia-estação (as resort ou cruise ou pré-outono – ufa!) das marcas de lá de fora, a gente aqui percebeu uma super quantidade de calças justas justíssimas nas passarelas. Daí a gente pensou num movimento natural de moda – depois de tanta “calça do namorado”, de tanta saruel e da onda das calças cenoura, nada mais possível, previsível até.
Mas né, a gente tá aprendendo (aqui no Brasil) que vontade é mais importante que tendência e – finalmente! – tá se exercitando no olhar/aprender com o que a gente tem aqui. E a gente tem calor (mesmo no inverno né!), tem movimento, tem necessidade de conforto e um senso de informalidade incrível. Costanza Pascolato escreveu que a gente tem “vocação espontânea para o casual”.
E aí, que alegria!, as calças desfiladas nessa edição de Fashion Rio tão larguinhas larguinhas, soltas no corpo, gentis com quem veste (já tavam assim na última edição do evento, ó!). Carinho com elegância. Sem-cerimônia mas com-identidade autêntica. ;-)
Modos de usar!
Como usar calças tipo saruel
Como usar calças tipo cenoura
Como não usar calças tipo cenoura!
Como usar calças tipo boyfriend
Como usar calças skinny bem justinhas














